a vida passa


chorar em etrusco ou na varanda,
porque em mim já não caibo.

é fim de tarde: na rua, passam, lentamente,
umas senhoras, suas dores (quase) amansadas,
                   dores que se convertem em diabetes
                                                            e hipertensão
e o mais que os seus silêncios de mães
não pronunciam senão por olhares cabisbaixos.

levam seus rosários; vão à missa.
eu as vejo com meus olhos já envelhecendo;
eu, que inda agora era jovem e supunha mudar o mundo,
quando sequer arranhei o muro,
exceto por umas insinuações poéticas.

(no alto céu, a noite a cair num cinza-azulado
em que o íntimo extasia a estrela e o pudor.)

noutro tempo, longe,
plangem violões uma serenata:
escuto um nome ― maria ―,
talvez aquela que,
no futuro,
nem mais se lembre de flor e vênus,
posto haver-lhe apenas sangue nas mãos,
                                                   sal não-bendito
e vermelho, todo forte.

adentro a casa em que moro,
vou à cozinha e sorvo uma dose de cachaça.
e, súbito, a voz que, em última esperança,
anuncia uma canção mínima:
estamos vivos no prezo do respirar.

a vida passa, sei, respirando.



│Autor: Webston Moura
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