O CÃO

Sempre, a partir das três, este cão me aparece.
Olha pela porta de vidro, faz sinal, ladra.
Dou-lhe alguma comida e água.
Ele come, bebe, demora-se um pouco e some.
Nunca soube para onde vai quando vira a esquina.
Do que me acontece, o fato sem rumo é apenas este,
o cão cujo nome ou origem não sei, nunca soube.

Dou de imaginar uma casa de onde ele foge
e vem desordenar, ao menos um pouco, minha rotina.
Este cão é a interrogação a que me obrigo pensar,
a pedra no sapato de meu pequeno reino de ordem e paz.
É o que me desestrutura e me põe no meio do inesperado,
como se uma pluma me tomasse as rédeas da razão e saísse ao vento.

Virá o dia em que ele desparecerá da minha vida.
Aí, que farei da hora vazia diante da porta?


│Poema da Série “Incidentes” – Autor: Webston Moura│

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