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Mostrando postagens de Abril, 2017

AO SOM DE UMA SALSA

Quase não suporta a bolsa; falta-lhe a respiração. Pouco antes de virar a esquina, o taxi some, surge um letreiro. Que importa. Vamos a pé mesmo. O filme é interrompido neste ponto. Avisam, lá de fora, que a luz caiu na cidade inteira. Você não gostaria de tomar uns drinques? Amanhã tenho que ir à cidade vizinha. Mas quem resiste a tão comovente convite. A luz voltou. A loja de miudezas parece uma feira.
Pipocas, bolas, negros meninos sorridentes nas calçadas. Um carro dos anos 50 ─ Estamos em Havana? Recomeça a cantarolar a salsa, dança na calçada. Um policial observa e sorri, distrai-se.
Sua pele parece algodão. Já está quase na hora de ir para casa. Me gusta mucho Mongo Santamaría. No entendí. Sorrimos. Começa a neblinar, suavemente.

│Poema da Série “Incidentes” – Autor: Webston Moura│

O CÃO

Sempre, a partir das três, este cão me aparece. Olha pela porta de vidro, faz sinal, ladra. Dou-lhe alguma comida e água. Ele come, bebe, demora-se um pouco e some. Nunca soube para onde vai quando vira a esquina. Do que me acontece, o fato sem rumo é apenas este, o cão cujo nome ou origem não sei, nunca soube.
Dou de imaginar uma casa de onde ele foge e vem desordenar, ao menos um pouco, minha rotina. Este cão é a interrogação a que me obrigo pensar, a pedra no sapato de meu pequeno reino de ordem e paz. É o que me desestrutura e me põe no meio do inesperado, como se uma pluma me tomasse as rédeas da razão e saísse ao vento.
Virá o dia em que ele desparecerá da minha vida. Aí, que farei da hora vazia diante da porta?

│Poema da Série “Incidentes” – Autor: Webston Moura│

O RELÓGIO

Guardo o relógio desde que aqui vim morar. Curioso tê-lo encontrado dentro de uma das paredes. A caixa de madeira, um entalhe com as iniciais ST na tampa. Objeto antigo, mas nem tanto, ainda funciona. Não quis tentar devolvê-lo, reconheço. Talvez, acredito, para ter um mistério e não um roubo. Depois de doze anos, continuo a perguntar sobre. Inventei, para meu próprio gozo, possibilidades. Mas nunca fui mais adiante em qualquer investigação.
Este relógio é o meu segredo obscuro, aquela dose de fantasia a que imaginativas pessoas se dedicam. Fora de toda previsibilidade, é a circunstância que não dirijo. Caso casual, apesar dos doze anos, marca as horas em que aconteço fora do mundo. E eu sempre hei de viajar.

│Poema da Série “Incidentes” – Autor: Webston Moura│

IMAGEM SOBRE O ESCURO

Este homem sorridente da foto está vivo, mas apenas nisto, imagem e canção. Por nossa lembrança, que o sol amarela, sobrevive este homem, cantado em nossa voz e conversado em nossas horas, história que se estende.
Parece ser que o maior das existências seja isto, imaginar e sentir mais que tudo, memória e força que o coração tange.
E assim diz-se passar a vida, mais ainda, vive-la mesmo, imagem sobre um escuro que desconhecemos.

│Poema da Série “Tempo e Vida” – Autor: Webston Moura│

UMA CONCHA NAS MÃOS

Vais à praia? Encontrarás um objeto calcificado cheirando a ontem. Toma-o, pois, à mão e compreende que estás nele e ele em ti, emaranhados os dois de tempo na matéria que se transforma.
Não penses muito, rapaz, que não és velho. Deixa que os anos além emprenhem a demora necessária. Corre na areia, segue, busca o sol e olha a beleza. Descansa tua cabeça de tanta história e lembra-te do momento. Nunca mais verás o dia, este, tão erguido como agora. E a isto, o dia real e único, é que deves chamar de milagre.

│Poema da Série “Tempo e Vida” – Autor: Webston Moura│

DE BRANCO E AZUL

Há um barco vazio na praia, com um vestido branco e azul dentro. Nenhum objeto mais ou indício de haver gente viva se acha.
Dão-se os homens em investigações, suposições, palpites e até invenções. Querem a verdade do que teria havido, mas nada de oficial sobre sumiços e naufrágios se noticia.
Correrão dias e dias, lendas surgirão de cada canto. Deseja-se dar sentido a um vestido branco e azul, peça que algum dia, deduz-se, vestiu a moça sem nome.
Envelhecerão todos sempre a lembrar de como incomoda este dia, este barco e o vestido vazio, tempo descolado da linha.
Inquieta a vida correndo invisível e obscura no tempo, o rosto e a história da moça sem nome vestida de branco e azul.

│Poema da Série “Tempo e Vida” – Autor: Webston Moura│